Inimigos Públicos



Inimigos Públicos é um filme repleto de problemas: para começar, é frustrante que a história de Melvin Purvis (Christian Bale) seja tão mal desenvolvida, sem mostrar o sujeito em cenas fora de seu trabalho. A obsessão de Purvis pela captura de John Dillinger (Johnny Depp) é o grande fio da trama, mas o filme só explora o lado do bandido. Fora isso, o roteiro de Michael Mann e Ronan Bennett demora para esclarecer quem é quem na quadrilha de Dillinger, tanto que só o esclarece no terceiro ato.

Mesmo assim, com Michael Mann na direção, Inimigos Públicos entra em outro nível: se ultimamente o diretor conseguia fazer ótimos trabalhos com roteiros capenguinhas (Colateral e Miami Vice), aqui ele realiza seu melhor trabalho desde O Informante. Por mais que tenha os problemas que apontei acima, trata-se de um filme único, com cenas fantásticas. Mann é o diretor que filma cenas de ação de maneira mais impressionante atualmente. As várias cenas de tiroteio e assaltos a banco são sensacionais.

Além disso, o romance de Dillinger com Billie (Marion Cotillard, linda) funciona bem para conduzir a narrativa. Do outro lado do espectro, o filme também mostra a criação do FBI pelo babaca J. Edgar Hoover (Billy Crudup, divertidíssimo) e a maneira "científica" de combate ao crime, que inclui torturar mulheres, fazer interrogatórios em sujeitos com uma bala presa entre o olho e o cérebro e escutas por todos os lados. Vale comentar que essa visão de Mann causou certo bafafá na mídia, que o acusou de celebrar a bandidagem ao manter o FBI no mesmo nível. Ora, basta lembrar que este mesmo J. Edgar Hoover foi um dos responsáveis por uma das cagadas mais incriveís da história dos Estados Unidos: expulsar Charles Chaplin do país porque, pasmém, ele criticava Adolf Hitler. Hum-hum...

Encarnando John Dillinger com o talento habitual, Johnny Depp é o claro destaque do filme, mostrando o lado divertido do personagem, que inclui o fato de ele ter sido praticamente uma celebridade, ou a inteligente estratégia de devolver o dinheiro aos civis que estavam nos bancos assaltados (o que o deu a fama de ser um Robin-Hood na época). A tragédia de Dillinger está na sua filosofia de "Live fast, Die young", que contrasta com o desejo romântico e impulsivo que sente por Billie, vivida com grande carisma por Marion Cotillard (e acaba surpreendendo nas cenas finais). Já Christian Bale, vítima de uma má construção do roteiro, consegue segurar bem o personagem, e torná-lo interessante a sua maneira..

Inimigos Públicos também exibe uma parte técnica invejável. A recriação da Chicago na época da Grande Depressão é incrível, assim como a fotografia do sempre confiável Dante Spinotti. Filmado em grande parte com digital de Alta-Definição, Michael Mann provavelmente fez o melhor filme já feito no formato, aproveitando ao máximo a capacidade da tecnologia mais leve e dinâmica. E se, apesar dos apesares não seja um filme perfeito, basta ver as brilhantes atuações de Depp, Bale e Cotillard e as geniais construções de cena de Mann (como o clímax na saída do cinema) para sentir que testemunhamos algo de realmente especial.

NOTA: 10

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