Caminho para Guantánamo



Daqui a alguns anos, quando olharmos para trás e analisarmos o impacto geral do que a era Bush representou em Hollywood, veremos que existiram dois tipos de cinema produzidos independente de suas qualidades técnicas/narrativas: o covarde, e o corajoso; ao analisarmos isso mais a fundo, perceberemos que os covardes venceram: o covarde se vangloriava da violência justificada, representada por Chamas da Vingança de Tony Scott, ou Falcão Negro em Perigo. justificava a vingança. Do cinema corajoso, será curioso ver como eles passaram em branco: Filhos da Esperança de Alfonso Cuarón ou A Última Noite de Spike Lee. Esse cinema corajoso foi declarado culpado pelo crime de pensamento em vigor nos dias de hoje e foram ignorados pelas massas, pois uma vez assistidos, eles apresentam idéias e atitudes que não condiziam com o pensamento atual.

Já saindo do mundinho da "América", o cinema mundial gritou de todas as formas possíveis para que Bush ouvisse suas próprias atrocidades, que fosse culpado pelos seus crimes. Desde filmes de entretenimento, como o coreano O Hospedeiro, passando por este brilhante Caminho para Guantánamo. É a história real de quatro amigos ingleses (e muçulmanos) que viajam ao Paquistão para o casamento de um deles. Lá, decidem viajar para o Afeganistão, e por obra do azar acabam em meio a várias pessoas com ligação com o Talibã e Osama Bin Laden. De lá, são enviados junto com os prisioneiros para uma das maiores vergonhas da história recente, a prisão de Guantánamo, na base americana em Cuba.

O filme utiliza um tipo de narrativa que eu detesto: o de usar depoimentos enquanto reconstitui as cenas como aconteceram, mas desde o início o filme dava sinais de que aquilo não era um mero acaso: poucas vezes testemunhei uma escolha tão acertada de narrativa no sentido de o que contar e como contar. A história é narrada de maneira rápida e jamais se torna confusa já que seguimos a linha de raciocínio das entrevistas: o resultado é que a história é mostrada de maneira enxuta e econômica, servindo ainda mais como um soco no estômago, já que mal testemunhamos um absurdo, já estamos vendo outro. Enquanto os guardas americanos provocam os presos chutando o Alcorão (e até eu que não conheço ninguém da religião, entendo o tamanho do desrespeito), os depoimentos feitos por "especialistas" da CIA surgem quase como alívio cômico, tamanho o absurdo exposto. E os realizadores demonstram cojones ao exibir imagens de Bush, Toni Blair e o resto dos culpados pela Guerra, contradizando-os com imagens reais que se misturam de forma orgânica a obra.

Utilizando uma montagem ímpar que impressiona sempre que apresenta as legendas de quanto tempo se passou de uma cena para outra, o filme foi dirigido por Mat Whitecross (que não conheço) e o talentoso Michael Winterbottom, que realizou outra obra-prima na década, o pouco visto (e apreciado) Código 46. Os diretores são extremamente bem sucedidos ao prender a atenção do espectador de forma assustadora, e para eles não basta mostrar como aconteciam as terríveis torturas psicológicas e físicas: enquanto somos apresentados a essas cenas horríveis, ouvimos as descrições detalhistas dos entrevistados.

Encerrando o filme com um "final feliz" que é seguido por informações finais devastadoras, Caminho para Guantánamo é uma obra-prima sensacional que mostra como o cinema pode e deve ser encarado como algo muito maior do que simplesmente entretenimento: deve ser tratado, sim, como um espelho da devastadora realidade que nos cerca.


NOTA: 10

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