O Visitante



 O Visitante é uma aula completa de cinema, e eu não tenho muito mais o que dizer fora isso. É um filme simples, completo, contado de maneira tão envolvente, com tanto amor pelos seus personagens, o roteiro diz tanto com tão pouco: características que o colocam lado-a-lado com o meu filme favorito do ano até aqui, O Lutador.

Escrito e dirigido por Thomas McCarthy, conta a história de Walter, um professor solitário e viúvo que ao viajar para Nova York, onde ele tem um apartamente, descobre que um casal de jovens está morando ali, pagando aluguel a um tal de Ivan. Walter decide deixar os dois morarem ali até encontrarem outro lugar, e cria uma grande amizade com Tarek, um jovem que o ensina a tocar tambor sírio.

O roteiro é cuidadosamente escrito, o diretor deixa que as ações, os olhares e as imagens digam muito mais do que palavras: é curioso como através de duas cenas e pouquíssimos diálogos, toda a situação que eu contei no parágrafo anterior já se concretiza, com calma, agilidade e muito talento.

E falar de talento, é falar de Richard Jenkins, que transforma Walter em um dos personagens mais amáveis a aparecer num filme em muito tempo. Atuando de maneira sutil, os pequenos tiques humorísticos que o ator dá ao personagem (como a desajeitada balançada de cabeça ao ouvir os tambores) acabam não apenas tornando-o mais rico e "comum", como também contribuem para que conforme a narrativa se torne mais séria, Walter acabe se tornando uma figura extremamente trágica (e é preciso elogiar mais uma vez no roteiro, que deixa algumas revelações sobre a história do personagem até o último minuto na manga).

O Visitante toca numa ferida que anda sendo bastante cutucada no cinema norte-americano: os problemas de imigração nos Estados Unidos. Se Rio Congelado foi também (um pouco menos) bem sucedido ao utilizar um drama interessante expondo isso como pano de fundo e Território Restrito acertou na abordagem para errar no roteiro, é curioso como O Visitante consegue deixar manter isso no pano de fundo, mas deixando uma opinião de forte personalidade. Basta ao filme mostrar as irônicas pinturas na parede do Centro de Detenção de Imigrantes, mostrar o péssimo atendimento aos visitantes e pouco mais que isso para que o diretor deixe muito clara a sua reprovação pelo estado desumano com que os imigrantes são tratados ali.

E isso é o que o cinema sempre deveria fazer, embora seja meio óbvio, é algo curiosamente fácil de esquecer; mas vai ser bem difícil agora depois dessa obra-prima.

NOTA: 10

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