Asas do Desejo






Cidade dos Anjos não é um filme ruim, mas empalidece feio diante do original, este Asas do Desejo do talentoso Win Wenders. Romântico e poético como poucos, é um filme sempre lembrado e faz por merecer. É tão raro assistir a uma obra sensível, tão bem escrita e tecnicamente tão brilhante. O problema da refilmagem com Nicolas Cage foi o excesso de água-com-açúcar, de tentar transformar um drama doloroso em algo simples, pastiche.

Não que Asas do Desejo não seja dramaticamente forte, mas o foco é outro. A obra de Wenders fala sobre o vazio espiritual em que a sociedade (ainda) passa. O primeiro ato estabelece uma marca genial: conforme vemos os personagens, podemos ouvir seus pensamentos assim como os anjos, que por essa limitação só podem desejar o "sentir". A cena em que vemos vários figurantes alemães de uma produção sobre a segunda guerra mundial vestidos de judeus enquanto ouvimos seus pensamentos é uma das mais belas de todos os tempos. Outro destaque é o suicídio de um certo personagem que começa como uma brincadeira visual, mas acaba também estabalecendo a passividade das possibilidades de ação dos anjos perante a humanidade.

Bruno Ganz, um ator extraordinário transforma o seu anjo num personagem tocante, cuja presença em tela garante serenidade: exibindo enorme sensibilidade, as cenas em que observa sua musa em meio a crianças (que podem enxergar os anjos) são lindas.

Asas do Desejo é um filme extraordinário, cujo único defeito é o excesso de diálogos no grande clímax: as performances e toda a situação construída conseguiu ser muito mais bonita e poética do que o que é dito, e não deixa de ser uma pena que o diretor não tenha visto dessa maneira. Mas nem esse contraponto   me deixa gostar menos dessa marcante obra.

NOTA: 10

0 comentários:

Real Time Web Analytics