Anticristo





Tudo em Anticristo nos remete aos mais terríveis sentimentos possíveis: reparem como até mesmo as pinturas que mostram o título dos capítulos parecem rabiscados com traços carregados de ódio. Lars Von Trier criou o filme durante uma longa depressão, e quem assistiu Dançando no Escuro ou Dogville sabe do que o diretor é capaz quando está feliz...

O filme narra a história de um casal atravessando o longo e doloroso processo de luto pela morte acidental de seu filho. Enquanto a mulher atravessa o luto com indícios cada vez maiores de insanidade, seu marido tenta confortá-la usando seu dom, a psicologia. Para ajudá-la, o marido resolve levá-la a uma casa em meio a uma floresta chamada Éden, que sua mulher diz ser o lugar que mais a apavora.

Anticristo parte de um princípio básico distorcido: ao contrário das visões sonhadoras em que a floresta, a natureza é um lugar quase sagrado, Von Trier a compara com a natureza humana. Ele não enxerga o belo, o etéreo, enxerga o canibalismo, a lei do mais forte, a devastação. Lembra a visão de Werner Herzog em O Homem-Urso, só que de maneira ainda mais subversiva. Enquanto brinca com esse conceito, Von Trier também subverte o gênero no qual o filme se insere: o terror. Usando o primeiro ato para nos ligar emocionalmente com seus personagens de maneira praticamente devastadora, o diretor aos poucos usa de imagens gráficas e perturbadoras e de sons assustadores para criar o clima infernal do filme. A sensação maléfica do filme lembra O Bebê de Rosemary de Polanski.

Mas, nada em Anticristo funcionaria sem o seu elenco. E Charlotte Gainsbourg, que ganhou um prêmio em Cannes por sua interpretação está brilhante, criando uma personagem complexa e pela qual é difícil não sentir compaixão. Fisicamente, a maneira como a atriz expressa a dor da personagem (em todos os sentidos) é impressionante. E Willen Dafoe não fica para trás. Sua interpretação é muito mais sutil do que o ator costuma fazer, criando um vínculo curioso com a de Gainbourg: é curioso que a química dos dois nos faça acreditar que eles realmente se amam, mesmo quando trocam as mais pesadas acusações.

Com um final violentíssimo e apocalíptico, eu diria, Anticristo é um filme difícil de assistir, violento de todas as maneiras que pode ser e extremamente perturbador. Mas é uma obra de arte impossível de ignorar, seja no bom ou no mal sentido.

NOTA: 10

1 comentários:

Mari disse...

O roteiro depressivo de Lars Von Trier me deu mais náusea do que angustia. E o que sempre gostei nos filmes dele era a forma como conseguia me deixar angustiada. Nota 7 pela maldade no filme e pelas excelentes interpretações de Gainsbourg e Dafoe, os dois estão sensacionais.

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