Manderlay



Para começar, é melhor avisar que os primeiros 15 minutos de Manderlay foram os piores que eu já vi num filme de Lars Von Trier. Primeiro, porque confia demais na memória do espectador que já assistiu Dogville para seu início, ou seja, deixa de tornar o filme independente do antecessor. E segundo, porque é muito, e muito estranho (e até inaceitável) que Grace e seu pai sejam vividos por outros atores. Não que o problema sejam as atuações de Bryce Howard Dallas ou de Willen Dafoe sejam os responsáveis (pelo contrário, Howard até supera Nicole Kidman), mas como disse, o início confia depende demais de Dogville: e os primeiros minutos de Manderlay também destoam completamente do antecessor.

Mesmo assim, Manderlay se mostra muito melhor do que parece. Desta vez, Grace encontra uma pequena fazenda no interior dos Estados Unidos onde os negros ainda são escravos. Grace resolve usar o poder da máfia que seu pai lhe concedeu para melhorar as condições de vida dos escravos dali. E é nisso que Lars Von Trier resgata de maneira impecável: o cineasta reconta a história da abolição da escravatura através de seu olhar cínico e assustador, ou seja, realista.

Lembra bastante o olhar do cineasta brasileiro Cláudio de Assis, e seu olhar nada poético sobre a miséria, tanto a física quanto espiritual em Amarelo Manga; e também o olhar de Spike Lee em seus primeiros trabalhos, dedicados ao racismo presente dentro da própria comunidade afro-americana. Só que Trier não deixa que nenhuma solução fácil atrapalhe a discussão, e nem mesmo aponta respostas. Apenas mostra vários pontos-de-vista válidos, por mais cruéis que pareçam.

Para isso, até mesmo nossa querida Grace começa a mostrar um lado menos bonito, como mostram seus sonhos eróticos que começam a se manifestar em alguns momentos ou até mesmo ao aceitar a "pena de morte", na cena mais emocionante do filme. Trier castiga sua protagonista para mostrar os absurdos, e as fotos nos créditos finais soam ainda mais cruéis do que em Dogville.

E é uma pena, que o início seja tão fraco, já que Manderlay tinha chances de até superar Dogville. E torço muito para que o diretor feche a prometida trilogia.

NOTA: 8,5

1 comentários:

O Cara da Locadora disse...

Confesso que não me lembro desse início ruim, acho que gostei tanto do filme que posso ter apagado essa imagem da cabeça... O Lars é realmente um grande cineasta e eu espero que o final da trilogia seja tão bom quanto seus antecessores... A história americana contanda de forma fria e cruel, muiot bom...

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