A Doce Vida



Já li inúmeras teorias sobre o significado desse filme de Federico Fellini. Uns dizem que é sobre os sete pecados capitais, outros uma crítica ao forte catolicismo da época... Eu só consigo dizer que minha identificação com Marcello (Marcello Mastroianni) é total. Seu personagem, extremamente complexo, dividido entre o jornalismo (um trabalho simples e bem remunerado) e a devoção a sua verdadeira paixão, a literatura é a mesma pela qual eu me sinto dividido. O filme tem um roteiro fragmentado, com cenas sem início ou fim. Para Fellini, o público deve apenas reagir ao que Marcello está passando. Não interessa como ele chegou ali, ou como saíra dali.

Entre estes fragmentos de vida, estão a breve relação de Marcello com a atriz Sylvia (Anita Ekberg), o reencontro do protagonista com um velho amigo casado e pai de duas crianças, cujo desfecho impactante e surpreendente tem grande impacto em Marcello. Há também as curiosas relações do personagem com seu pai e com sua esposa; Em seu pai, Marcello busca afeto a todo momento, e o recebe, mas existe uma barreira invísivel entre o dois que é mostrada de maneira genial na cena em que seu pai sofre um ataque e decide voltar para casa. E em sua esposa, Marcello parece pressionado pelo excesso de afeto que recebe. Se diz sufocado pelo amor fraterno. Essas relações ainda seriam trabalhados na obra-prima que seguiu este filme, Fellini 8 e 1/2.

Fellini cria algumas das cenas mais célebres do cinema italiano nesta obra, como a declaração de amor de Marcello para Madalena e, é claro, Anita Ekberg na Fontana di Trevi, cena mais celebrada do filme. E Marcello Mastroianni está no auge de seu talento. Não apenas o considero o melhor ator europeu da história, como provavelmente, um dos melhores do mundo.

Complexo em sua simplicidade e claramente apaixonado por Roma, Federico Fellini criou um filme de ambiguidade tão grande que até mesmo hoje, ninguém sabe exatamente se o título A Doce Vida é irônico ou uma afirmação. Eu acredito que Fellini não pensou em si ao dar nome a obra: talvez caiba ao público passar pela experiência, e decidir o que o título significa.

NOTA: 10

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