Império dos Sonhos



Eu não vou nem tentar fingir que eu entendi o que diabos eu vi nesse pesadelo de três horas filmado por David Lynch. Se mesmo em suas obras mais complicadas, como Estrada Perdida ou Cidade dos Sonhos, haviam oportunidades mais promissoras para uma explicação, aqui em bom português, o cara fode tudo. No bom sentido, acredite. A verdade é que Império dos Sonhos independe de uma narrativa lógica para funcionar. O filme é uma verdadeira experiência emocional. Consegue emocionar, comover, e principalmente, assustar. Mesmo sem grandes cenas violentas ou sustos, é um filme extremamente perturbador.

Filmado com câmera digital (ao longo de três anos), o filme de início apresenta uma história linear: a atriz Nikki (Laura Dern) se envolve com o filme On High and Blue Tomorrows, e no primeiro dia de filmagens, o diretor do filme (Jeremy Irons) revela a verdade por trás do filme: ele é baseado num conto alemão chamado 47, que é amaldiçoado. Na Polônia, quando tentaram fazer esse filme pela primeira vez, os dois protagonistas foram assassinados, e jamais foi concluído. Com o tempo, a maldição parece realmente existir e afetar psicologicamente Nikki, que ao transar com Devon (Justin Theroux) acaba chamando ele pelo nome do personagem.

E aí, assim como acontece com a caixa azul em Cidade dos Sonhos, como a orelha em Veludo Azul e na cena da cela em Estrada Perdida, tudo que achávamos certo, vira do avesso várias vezes. E dessa vez, parece sensato dizer que nem o criador da obra parece saber onde o filme está indo.

Muito do cinema de David Lynch pode ser mais "entendido" ao sabermos que antes de cineasta, Lynch é um pintor. É sensato pensarmos que ele busca a relação que temos com a pintura, com nossa relação com seus filmes: ou seja, não uma reacção lógica de começo-meio-e-fim, mas a busca por uma sensação, sentimentos. E em Império dos Sonhos, essa busca é maravilhosamente desenvolvida. O filme é verdadeiramente hipnótico, e mesmo que seja desconexo e absurdo, existe uma unidade que cerca toda a obra.

Todos os elementos mais conhecidos de Lynch estão ali: a busca pela identidade ("olhe para mim, e diga se me reconhece."); a não-linearidade dentro da vida dos personagens ("se hoje fosse amanhã, você estaria sentada ali."); o cenário de cortinas vermelhas; a lógica de pesadelo.

Alguns temas claros no filme, são a sensibilidade feminina, sempre tão reprimida no pensamento machista, e novamente Hollywood. Lynch filma os cenários dos estúdios como verdadeiras portas para outros mundos (e isso é uma das respostas possíveis para o filme), mas é no lado negro de Hollywood que o filme encontra uma beleza única. As prostitutas e mendigos em cima da calçada da fama são poéticos e marcantes na obra.

Mas faltam adjetivos para classificar a performance de Laura Dern nesse filme. Assim como Naomi Watts em Cidade dos Sonhos, Dern faz com que nos identifiquemos com sua personagem, nos levando a quase ignorar os "absurdos" da trama graças a força de sua interpretação.


Império dos Sonhos não é um filme fácil de gostar, e talvez seja o caso mais extremo de "ame-o ou odeie-o" que eu já pude conferir. Nem sempre Lynch acerta (não sou muito fã de Eraserhead, e detesto Coração Selvagem), mas quando acerta a experiência é única. E Império dos Sonhos consegue ser um filme único dentro da filmografia já única de David Lynch, e só por isso, merece um destaque especial.

NOTA: 10

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