Na Captura dos Friedmans



É difícil recomendar Na Captura dos Friedmans. Assistir este documentário não é uma experiência prazerosa, aliás, muito pelo contrário: é um filme extremamente doloroso e quase surreal, tamanho o absurdo de sua triste história. Ao final, junto com as lágrimas, somos tomados por um sentimento de revolta e impotência, perante tantas atrocidades.

O documentário conta a história de Arnold Friedman, premiado professor que morava numa pequena cidade nos Estados Unidos, com sua esposa Elaine e seus três filhos, Seth, David e Jesse. Arnold era professor de piano e dava aulas de informática para crianças em sua casa, com seu filho mais novo Jesse. O problema, é que Arnold era consumidor de pornografia infantil, e quando foi pego pela polícia, esta logo suspeitou das aulas de computação que Arnold lecionava.

Com uma investigação escandalosa e a mídia (que sempre ajuda maravilhas nessas horas), uma onda de histeria cresce na cidade, e Arnold e seu filhos são presos, e condenados com fiança de 1 milhão de dólares.

E logo começam as perguntas desse maravilhoso documentário, conduzido com maestria por Andrew Jarecki: como os dois foram condenados por abuso sexual, sendo que não havia nenhuma prova física de estupro em nenhuma das crianças? Porque em quase 5 anos, nenhuma criança jamais relatou nada aos pais, ou ninguém desconfiou, sendo que as vezes, os pais chegavam de surpresa para pegar os filhos e sempre iam buscá-los? Perguntas tão básicas, por incrível que pareça, não foram feitas pela polícia ou pela mídia, e como resultado, a família Friedman é destruída emocionalmente. Aliás, um dos filhos, David começou a filmar as discussões que ocorriam em sua casa durante esse processo, e como resultado, vemos algumas das cenas mais dolorosas jamais imaginadas em nenhuma ficção.

O diretor Andrew Jarecki é discreto e jamais aparece no documentário, mas nas poucas vezes que o ouvimos, podemos notar um diretor de pulso firme e forte (observem como ele confronta uma das vítimas dos supostos abusos sexuais). Jarecki deixa que os personagens falem, e raramente interfere na narrativa, fazendo-o apenas quando absolutamente necessário, como nas legendas após cada entrevista com as vítimas.

Mas não se deixe enganar: o diretor em nenhum momento inocenta Arnold Friedman. Sim, ele era pedófilo, e detalhes mais sórdidos da sua vida não são escondidos, mas são debatidos com tanta importância quanto qualquer outro tema no filme. Mas é nisso que o documentário ganha força: Andrew Jarecki humaniza seus personagens, dá voz a eles. E por mais defeitos que surjam, não podemos deixar de reconhecer o absurdo da situação, e que mesmo com seus erros, Arnold (e muito menos Jesse, que passou 18 anos preso) não merecia o abusivo castigo de uma sentença jamais devidamente investigada.


Na Captura dos Friedmans merece ser objeto de estudo por pessoas de jornalismo para que façam a pergunta: até onde a mídia pode ir? Quando ela deixa de ser informativa, e passa a ser nociva? Afinal, porque justamente este julgamento foi o primeiro a ser transmitido pela televisão americana?

A resposta é fácil: jornalismo não é informação a muito tempo, é entretenimento. Preste atenção nas chamadas de jornais, impressos ou televisivos. Elas buscam o choque, para que você permaneça ali, tal como qualquer filme de ficção. E num drama tão complexo quanto o que é retratado nesse documentário, só podemos lamentar este fato.


NOTA: 10

3 comentários:

Mari disse...

Minha nota com certeza também é 10! Se não foi o melhor, é um dos melhores documentários q já assisti. O pior de tudo é a revolta que se sente durante o filme. Nele está muito claro a injustiça que foi feita com os Friedman.
Documentário absurdamente angustiante, mas simplesmente maravilhoso.

Beijos.

Anônimo disse...

Tiago, ainda não vi o filme mas adorei a sua crítica, principalmente ao jornalismo, só q vc deu um imperdoável escorregão no português. Vc mesmo é jornalista?
Beijos
Guenia Bunchaft
www.sospesquisaerosrschach.com.br

Anônimo disse...

O que seria uma IMPERDOÁVEL escorregão no português?

Escorregou na banana do portuga?

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