Ensaio Sobre a Cegueira



Qualquer um que tenha acompanhado o blog de Fernando Meirelles sobre Ensaio Sobre a Cegueira observou a insegurança que cercava o diretor em torno do filme. E não estou dizendo nada negativo sobre isso: acompanhei o blog e sua insegurança é perfeitamente natural, pela própria natureza da obra que ele trabalhou. E a preocupação gigantesca de respeitar a essência do texto de José Saramago, e principalmente, agradar ao próprio Saramago. E talvez seja nessa preocupação que esteja a única bola fora de Meirelles.

A idéia (citando o que li no blog) era manter o segundo ato dividido entre a personagem de Julianne Moore e o personagem de Danny Glover, que é visto como alter-ego do escritor português. Aí que a coisa se perdeu um pouco. Na versão que assistimos, a narrativa predomina na personagem de Moore, mas com interferências pontuais de Glover. O resultado é que quando essas interferências acontecem, elas quebram a narrativa do filme, como a cena em que Glover liga o rádio AM: sua explicação para o que aconteceu é interessante (mas podia ser mostrado só com imagens), mas a narração em off durante a música que segue quebra o impacto da belíssima cena. Felizmente, esses tropeços ficam no segundo ato do filme, que quando acerta (no primeiro e no ato final), se torna mais um maravilhoso exemplar do diretor brasileiro.

Ensaio Sobre a Cegueira mostra uma epidemia de cegueira que atinje uma grande metrópole. Conforme ela se espalha, os infectados são colocados em quarentena. Apenas uma pessoa não é contaminada, a Mulher do Médico (Julianne Moore) que acompanha o marido (Mark Ruffalo), pensando que tudo irá acabar cedo. Com o tempo, cada vez mais pessoas se infectam e o local de quarentena fica lotado, fazendo com que as pessoas se organizem em lideranças improvisadas que funcionam bem, até que o personagem de Gael Garcia Bernal se nomeie Rei da Ala 3 e, portando uma arma, dê início a uma ditadura opressora, que dá início a estupros coletivos.

O diretor de fotografia César Charlone (parceiro habitual de Meirelles) faz o seu melhor trabalho até hoje. Utilizando uma claridade que chega a ser desconfortável, a fotografia mantém uma lógica visual impecável para o filme, e Daniel Rezende, o montador, mostra mais uma vez seu talento, criando transições surpreendentes e um bom ritmo.

Julianne Moore e Mark Ruffalo estão brilhantes em suas atuações, e seu arco dramático é brilhantemente ilustrado, muito menos com diálogos e muito mais com olhares (o que é irônico nesse filme...). Gael Garcia Bernal exagera na dose em seu personagem em alguns momentos, mas isso acaba funcionando bem. E se Alice Braga e Danny Glover encontram espaço para brilhar mais no terceiro ato do filme (na bela cena da fogueira) é o casal interpretado por Yoshino Kimura Yusuke Iseya se destacam, com sua história simples e comovente. 

Demonstrando seu potencial para se tornar um dos grandes diretores da atualidade, Fernando Meirelles pode ter escorregado em alguns momentos em Ensaio Sobre a Cegueira, mas a força do filme consegue perdoar os pecadilhos, que se comparados a ousadia e o talento do filme, ficam triviais.

NOTA: 8,5

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