Enron - Os Mais Espertos da Sala



Um documentário sobre a falência de uma das maiores corporações americanas dos últimos anos pode ser uma coisa que não nos interesse imediatamente. Aliás, talvez nem o povo de lá. O diretor Alex Gibney provavelmente sabia disso, e surpreendeu no conteúdo do filme: sim, está ali as histórias burocráticas sobre fraudes, números e blablablas, mas o mais importante é que o diretor humaniza os principais culpados, e faz de Enron não só um documentário burocrático sobre uma empresa, mas também uma tragédia humana, com toques interessantes de humor negro.

A Enron foi uma empresa que surgiu nos anos 80, criada por Ken Lay, que dizia vender fontes alternativas de energia, como gás natural. Nos anos 90, o polêmico Jeff Skilling entra na empresa. Nerdão com gosto por aventuras perigosas, acreditava que ter uma idéia era tudo, e a partir de ter a idéia, era necessário colocá-la em prática no mesmo momento.

O problema era que a Enron nunca apresentou um balancete decente para seus investidores, ou para o próprio governo. Isso gerava dúvidas em muitas pessoas, mas como a empresa "lucrava", e trazia lucro para outras, ninguém questionava. As aspas no "lucrava" são por um motivo: a empresa estava falindo a anos, e seus balancetes eram manipulados, para parecer que a empresa tinha altos lucros (o que consequentemente, aumentava o número e o valor dos investimentos).

Foi com uma matéria simples na revista Fortune que a jornalista (e linda) Bethany McLean fez uma simples pergunta: Como a Enron consegue seu dinheiro? A pergunta nunca foi respondida, e foi lançada no início da rápida queda da empresa. Jeff Skilling vende 200 milhões em ações, e sai da empresa para surpresa de todos, já que a tempos, insistia para que os funcionários investissem seu próprio dinheiro na empresa. Resultado: poucos meses depois, todos os chefões da empresa venderam suas ações, a empresa faliu, e o dinheiro dos funcionários e de todos os investidores sumiu, gerando uma investigação da qual até hoje, ninguém foi realmente condenado.

Alex Gibney traz uma forte marca visual para o filme: seus enquadramentos frequentemente tratam da dualidade, apostando em reflexos, brincando com a temática do filme de maneira inteligente. E algumas cenas são realmente brilhantes, como a narração que fala da rápida queda da empresa, enquanto vemos um homem em queda livre em um desfiladeiro, numa imagem de tirar o fôlego. Mas o grande golpe do diretor é mostrar áudios nunca antes mostrados dos traders que trabalhavam na empresa, que sadicamente comprovam como a Enron causou uma crise no setor de energia elétrica na Califórnia apenas para criar um enorme lucro (e a discussão sobre o lado negro do ser humano que o filme propões se torna fascinante).

O filme só tem problemas em sua primeira metade, principalmente quando coloca em evidência um excêntrico funcionário japônes que era viciado em strippers, já que, apesar de divertido, não acrescenta nada ao filme. Aliás, é interessante como os personagens de Ken Lay e Jeff Skilling ganham uma brava complexidade ao longo do filme, mas o terceiro culpado (que hoje é testemunha chave), se torna quase uma caricatura.

Enron: Os Mais Espertos da Sala é surpreendente em sua denúncia e divertido. Divertido? Sim, ou você não ri de um cara como Ken Lay que tem coragem de dizer: "Minha esposa e eu estamos muito tristes com isso. Nossa fortuna de centenas de milhões se reduziu a algumas dezenas..."; ou da empresa fictícia M. Yass? (Em caso de dúvida, tire o ponto, separe o y do nome e junte com o m).

NOTA: 8,5

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