O Sétimo Selo



Assisir O Sétimo Selo não é tarefa das mais agradáveis. Aliás, corrigindo: Assistir um filme de Ingmar Bergman não é tarefa das mais agradáveis. O cineasta sabe, como poucos, criar narrativas opressoras que fazem com que, mesmo em seus ótimos rompantes de humor, jamais nos deixam rir, sem uma ponta de melancolia ("Eu podia te estuprar, mas cá entre nós, não acredito nesse tipo de amor."). O Sétimo Selo é provavelmente, seu filme mais popular e lembrado.

Começa contando a história de dois cavaleiros voltando das Cruzadas. Um deles começa a ser perseguido pela Morte, e consegue fazer um pacto com ela. Irão disputar uma partida de xadrez, e se ele ganhar, a Morte lhe deixará em paz. O cavaleiro é Antonius Block e é interpretado pelo magnífico Max Von Sydow. Bergman, exímio roteirista e diretor, aplica uma complexidade temática no filme e em seus personagens nos mínimos detalhes. Antonius não quer adiar sua morte: aliás, não se preocupa em morrer no sentido físico: Seu problema é morrer sem respostas. Em nome do Deus que ele ama, ele matou milhares de "infiéis", e voltando ao lugar onde morava, seus cidadãos sofrem com a Peste Negra, que aos poucos vai dizimando a população. Ao observar uma garota sendo queimada pelos seus pecados, ele e seu companheiro ficam a observar seus olhos. Seu companheiro diz "veja se ela parece ter uma revelação. Parece estar descobrindo algo. Deus? Anjos? O Diabo? Não, o vazio, apenas o vazio do céu até a lua".

O filme também nos apresenta a um casal de atores e seu filho pequeno, cujo pai tem visões sobrenaturais, desde visões malignas quanto a Virgem Maria, são obrigados a se apresentar ganhando pouco dinheiro a uma população descrente, que parece conformada em sentar e aguardar a morte chegar lentamente.

A ausência de Deus no povo (ou a incerteza da fé) é um dos principais temas dessa obra de Bergman. Assim como Cláudio Assis vem falando em obras como Amarelo Manga e Baixio das Bestas, um povo que vive em miséria e sem esperança, jamais será um povo cujos valores não sejam invertidos e esquecidos quando necessário. Numa cena, uma procissão de pessoas carregando cruzes e se chicoteando, enquanto rezam e gritam sobre o fim dos tempos comove a cidade, que se ajoelha diante de sua passagem. Na outra, dentro de um bar, o povo se diverte enquanto o ator é ameaçado de morte, e é obrigado a dançar em cima de uma mesa que pega fogo.


O Sétimo Selo é um filme pesado e desagradável, mas brilhante em sua proposta. E o final, uma mistura de happy-ending com apocalipse, é só uma das provas de sua genialidade.

NOTA: 9,5

2 comentários:

Adriano Mendes disse...

Ao lado de um filme que eu esqueci o nome que conta a história de uma garota que é estuprada e morta e depois os pais se vingam (do Bergman também), O Sétimo Selo são meus dois prediletos dele.

Luiz Vicente de Siqueira Verrone disse...

Atual para todos os tempos de crise, contextualizado, relativizado, só na vida real se vira o frango, a criança e o adulto do avesso. Relativamente tudo pode ser corrigido, e absolutamente, a Lei atuar, as vezes punindo, as vezes absolvendo, enquanto houver culpados e inocentes.

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