Jules e Jim - Uma Mulher para Dois




François Truffaut realizou um pequeno milagre: ao contar a história de um triângulo amoroso que se estende por décadas, o filme jamais perde a aura de inocência. Aliás, os personagens da trama jamais deixam que suas intenções magoem o outro. E talvez por isso, conforme o filme passa, os três estejam tão lesados emocionalmente que, de uma comédia romântica, paramos num drama psicológico (e dos pesados...) e o melhor: quando percebemos essa mudança, é impossível identificar onde ela ocorreu.

Escrito e dirigido por Truffaut, Jules e Jim conta a história de... bem... Jules e Jim, dois amigos que buscam o amor em Paris. Enquanto Jim tem uma certa facilidade para conseguir garotas, Jules, um austríaco, acaba repelindo as mulheres, graças a sua enorme insegurança. As coisas mudam para os dois, e de maneira definitiva quando Catherine entra em suas vidas. Com pouco tempo de relacionamento, Jules já começa a propor a garota que eles se casem. Os três se tornam companheiros inseparáveis, até a Primeira Guerra Mundial, quando Jim entra para o exército francês e Jules para o austríaco (e o maior medo de ambos é acabar matando um ao outro no front).

Acabada a guerra, Jules já casado e com uma filha com Catherine convida Jim para morar perto deles. O relacionamento entre os três, porém, já está bem diferente. Caterine parece disposta a abandonar Jules; e Jim e ela parecem prontos para ficar juntos... mas contar mais que isso, é covardia. O filme caminha por situações inusitadas, mas mesmo as decisões mais absurdas (lembre de Albert...) ganham contornos humanos graças ao roteiro sensível, e as interpretações maravilhosas do elenco.


Jeanne Moreau, como Catherine está absurdamente perfeita. É notável como ela interpreta uma mulher que tem perfeita noção de que ela atrai os homens, mas parece carregar isso como uma maldição. Oskar Werner e Henri Serre como Jules e Jim (respectivamente) não deixam por menos, e dão profunda dimensão a dor de seus personagens. Oskar, aliás, se destaca numa comovente cena em que declara seu amor por Catherine "eu te amo, não importa o que você faça". O amor de Jules por Catherine é tão absurdamente grande, e Catherine sorrindo diz "Nós somos felizes, não somos?", ao que Jules responde "Bem... eu sou.". Jules sabe que Catherine está, naquele momento comovida com seu amor. Mas sabe, que quando necessário, ela usará esse amor como motivo de escárnio.

A direção de Truffaut é nada menos que brilhante. Assistir ao filme, é observar o quanto ele influenciou milhares de outros diretores. A sequência de abertura, apresentando os personagens em cenas rápidas, influenciou sem dúvida nenhuma Martin Scorsese na abertura de Caminhos Perigosos, e Paul Thomas Anderson em Magnólia; a narração em off que acaompanha a história simplesmente citando os fatos e pensamentos, sem emitir julgamento sobre os personagens definitivamente pesou em Alfonso Cuáron em E Sua Mãe Também.

Além disso, o diretor cria cenas brilhantes ao apresentar seus conceitos: Por exemplo, ainda no primeiro ato do filme, Os três decidem apostar uma corrida em um túnel. Catherine está vestida de homem. Eles contam para dar a largada, mas ela sai correndo na frente. Simples: Catherine a frente, diasfarçada de outra pessoa, é seguida pelos dois, que disputam para alcançá-la. Ou a cena inusitada em que ela pula no rio (cujo significado é entendido mais tarde).

Se eu tivesse que indicar um filme antigo para alguém que não se interessa tanto por cinema, indicaria Jules e Jim, sem pensar duas vezes. A trilha sonora, é provavelmente uma das melhores de todos os tempos (principalmente na cena em que Jim visita um cemitério, após a guerra). Sua narrativa é rápida e direta, e sua história é tão bela e universal, que poucoas vezes, devo dizer, que conferi uma obra que envelheceu tão bem. Aliás, envelheceu tão bem, não. O filme se mantém jovem e inocente, e intocado pelo tempo. Um filme com tantas características de vanguarda, que ainda se mantém a frente das obras contemporâneas. Clássico.

NOTA: 10

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