Vivendo no Limite



Antes de O Aviador e Os Infiltrados, grande parte do público havia perdido a fé em Martin Scorsese. Pura bobagem de quem não viu qualidades em Cassino e neste Vivendo No Limite, filmes que mostram que Scorsese pode ter mudado, sim, mas jamais perdeu o talento. Se passando no começo da década de 90 em Nova York, conhecemos Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico à beira da loucura. Durante três dias, vemos Frank caminhar mais perto do abismo da culpa, já que há tempos ele não consegue salvar alguém. Além disso, Frank ainda tem que lidar com a aparição do fantasma de Rose, uma garota asmática que morreu enquanto Frank a atendia numa rua.

Sem possuir um antagonista específico (o vilão do filme é a própria cidade), a trama acaba funcionando um estudo de personagens, todos no limite de suas forças, tentando sobreviver à uma Nova York repleta de melancolia, mortes e fantasmas. As longas corridas da ambulância são sempre repletas de angústia e sempre tememos pelo que os personagens terão que enfrentar. Nicolas Cage está em seu melhor momento desde Despedida em Las Vegas. Cria um Frank perfeito, melancólico, explosivo, cansado, capaz de emocionar qualquer um (basta ver a cena em que ele é obrigado por uma enfermeira a aplicar eletrochoque num paciente). Patricia Arquette está ótima, criando grande química com Cage. Ving Rhames, Tom Sizemore e John Goodman formam um time perfeito de coadjuvantes, e alguns dos melhores momentos do filme vem de seus personagens.

A montagem de Thelma Schoonmaker (colaboradora habitual do diretor) é impressionante e remete bastante ao estilo de Os Bons Companheiros, ou seja, a velocidade dos cortes remete ao estado de espírito do personagem no momento. Criando cenas que passam pelo grotesco e pelo lírico, Scorsese e o diretor de fotografia Robert Richardson dão um clima de pesadelo ao filme, como nas sequências do hospital, as ruas durante a noite e o "Oásis". Aliás, o uso da trilha sonora brilha num momento breve: Frank e outro médico fazem piadas sobre um paciente inconsciente. Ao olhar para o paciente, Frank o imagina gargalhando, enquanto a música ao fundo diz "It ain`t funny, it ain`t funny at all". Belíssimo. 


Apenas a duração excessiva acaba incomodando um pouco. Contando com um ato final absolutamente genial, infelizmente, não fez o mesmo com que os detratores voltassem a enxergar a qualidade desse genial cineasta. Algo que só um aviador doido e uma violenta trama em Boston que ganhou um Oscar conseguiram. Uma pena.


NOTA: 9

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