Entre os Muros da Escola



Entre os Muros da Escola não é um filme divertido, aliás, sequer prazeroso de assistir. Com apenas 20 minutos, eu já estava emocionalmente esgotado, imaginando de onde vinha a paciência absurda de seu protagonista. Isso quer dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário, e me sinto na obrigação de dizer que Entre os Muros da Escola merece ser assistido por todos, e devia ser obrigatório sua exibição em escolas, faculdades, etc.

Dirigido por Laurent Cantet a partir do livro de François Bégaudeau, que também protagoniza a história (algo que só me faz admirá-lo ainda mais), o filme mostra um curto período de tempo com um professor lidando com sua turma de adolescentes, tudo a partir do ponto de vista do protagonista. Nos primeiros dez minutos, ao mostrar o esforço do professor ao simplesmente pedir para os alunos escreverem seus nomes num papel, o filme carrega uma tensão que poucos filmes de terror ou suspense conseguem.

Mas o filme não se limita a mostrar o conturbado relacionamento entre professores e alunos: Entre os Muros da Escola é uma análise complexa e detalhada sobre o funcionamento de uma escola, e o filme retrata seus pequenos casos de forma fascinante, como o desabafo explosivo de um professor, ou até mesmo na comemoração da gravidez de uma personagem, que não consegue deixar de fazer um comentário comovente sobre um aluno em seu discurso.

Aliás, melhor ainda: apresentando a complexidade da história sem jamais responder nenhuma de suas questões (algo que seria até grosseiro), o filme jamais apresenta os arquétipos típicos da dramaturgia, e se no início um dos professores parece se tornar um antagonista (ao ir contra as opiniões do protagonista), o roteiro surpreende ao mostrá-lo como um personagem muito mais dedicado e interessante do que o imaginado, e o momento em que ele discute sobre qual é o limite da relação professor/aluno de modo que o primeiro não interfira na educação que os pais proporcionam é um dos vários pontos altos do filme. E é preciso também admirar a coragem de François ao não se poupar de uma severa auto-critíca quando ofende duas alunas e omite isso em seu relatório.

Fascinante, inteligente e construtivo como poucos, Entre os Muros da Escola é uma obra-prima que ainda vai ser discutida por anos a fio, e pelas suas enormes qualidades, merece, conseguindo se destacar num gênero que foi brilhantemente parodiado por Perdendo a Noção.

NOTA: 10

Lua Nova



É preciso ser um diretor muito, mas muito bom para salvar uma história ruim: Scorsese, por exemplo, conseguiu salvar roteiros fracos como Cabo do Medo e Gangues de Nova York; já Danny Boyle fez merda em Quem Quer ser um Milionário?, assim como Tim Burton em Sweeney Todd. Digo isso porque gosto da carreira de Chris Weitz, diretor desse Lua Nova, principalmente do magnífico Um Grande Garoto. Weitz é um diretor competente que sofre do mesmo mal de Kevin Smith: não se acha um bom diretor, e parece sempre pronto a se sabotar quando fala com a imprensa. Embora aqui, ele realmente deva se sabotar: Lua Nova lembra o primeiro trabalho de destaque dele: American Pie.

O diretor faz o que pode: capricha nos efeitos especiais, nas cenas de ação e até nas passagens de tempo (a passagem dos meses através do plano sequência em 360º é uma agradável surpresa). Além disso, toda a cena que se passa na Itália com os personagens de Michael Sheen e Dakota Fanning são intrigantes e bem construídas (e os dois atores estão espetaculares em meio a tantas atuações fracas).

Mas a pergunta que fica é: isso consegue salvar Lua Nova? Não, e nem Kubrick conseguiria fazer um filme descente com uma história tão capenga e manjada. Conseguindo a façanha de ser ainda pior que Crepúsculo, a trama se apresenta de maneira rápida e eficaz só pra dizer que Edward abandonou Bella (de novo), Bella sofre (de novo), fica amiga do cara que na verdade é um lobisomem (de novo, oh wait...). E a maneira como Bella lida com esse "complexo" triângulo amoroso só fará sentido se no final, ficar claro que a protagonista é na verdade uma completa deficiente mental, capaz de abandonar qualquer ambição na vida por homens que viram purpurina no sol, ou que viram lobos quando ficam brabinhos.

Se no primeiro filme, Kristen Stewart até conseguiu fazer uma boa atuação, aqui ela parece ver a merda que fez e atua com preguiça notável (basta comparar com suas ótimas atuações em O Quarto do Pânico ou Na Natureza Selvagem). Robert Pattinson continua o mesmo, ou seja, uma merda e Taylow Lautner como o lobisomem não é um grande ator, mas é carismático e tem um bom timing cômico.

Quando escrevi sobre Crepúsculo, logo recebi um comentário dizendo que eu fui mal com o filme, pois é um "filme de mulherzinha". Ora, independente do público-alvo do filme, defendo a teoria de que os realizadores devem ter consciência que outras pessoas vão assistir o filme e que não devem apenas agradar um determinado tipo de espectadores. Vários "filmes de mulherzinha" agradaram muitas pessoas: O Diabo Veste Prada ou Titanic, por exemplo são dois filmes excelentes. Mas não posso ser tão chato, afinal Lua Nova é indiscutivelmente superior a Crepúsculo, tanto que se dei uma nota 2 para o primeiro, este segundo recebe uma...

NOTA: 2,1

Café da Manhã em Plutão



Se há um diretor extremamente subestimado nos dias de hoje, esse diretor é Neil Jordan. Diretor de várias obras-primas como Fim de Caso, Traídos pelo Desejo e o esquecido Nó na Garganta, e vários outros bem-sucedidos como Entrevista com o Vampiro, Jordan é o tipo de cineasta que anda em falta. Capaz de criar sequências mágicas e com uma forte marca visual, tem uma carreira consistente e, infelizmente, quase desprezada. E Café da Manhã em Plutão é mais um filme que serve para lembrar do  talento desse grande diretor.

Escrito pelo mesmo autor de Nó na Garganta, Patrick McCabe em parceria com o diretor, conta a história de Patrick, um garoto que abandonado pela mãe, e pelo pai (que é um padre) acaba sendo criado por uma família que não entende a opção sexual do garoto, que desde a infância sonha em ser uma mulher, baseada na imagem de sua mãe que nunca viu e era parecida com uma grande atriz. Patrick decide então ir para Londres procurar sua mãe, sem qualquer dinheiro ou condição. Só que essa história se passa na Irlanda nos tempos dos conflitos do país com os ingleses, e de forma indireta, Patrick acaba passando por isso sem entender o contexto em que se encontra.

Interpretado com genialidade ímpar pelo ótimo Cillian Murphy, Patrick (ou Patricia) sofre uma curiosa transformação durante o filme: se de início seu visual é andrógino, aos poucos, com sutileza o ator consegue criar uma mulher em todos os seus trejeitos. Liam Neeson e Brendan Gleeson também brilham em suas participações, assim como o habitual parceiro do diretor Stephen Rea, que tem o desfecho mais decepcionante da história.

Narrado de maneira propositalmente episódica, Café da Manhã em Plutão é um pouco mais longo do que deveria, e nem sempre fecha o arco dramático dos personagens secundários de maneira satisfatória, mas esse erro é compensado pela criaticidade do diretor, que não apenas joga elementos de contos de fada em meio a história (os passarinhos conversando), como também cria sequências marcantes, como de habitual, do qual destaco a explosão em meio a uma danceteria e a cena de interrogatório, a mais engraçada já vista no estilo 'Good cop, bad cop'.

Café da Manhã em Plutão é um filme extraordinário que serve muito bem para salientar o talento de seus envolvidos. Contando uma verdadeira fábula contemporânea (engole isso Quem Quer ser um Milionário?!!!!), tem um desfecho belíssimo e significativo, provando que é um filme que nasceu para se tornar inesquecível, assim como seu inusitado protagonista.

NOTA: 9,5

Psicopata Americano



Quem quer ver um filme de serial killer é bom passar longe de Psicopata Americano, que na verdade é uma comédia dramática com um protagonista trágico e vazio. Escrito e dirigido por Mary Harron a partir do polêmico livro de Bret Easton Ellis, o filme na verdade é uma forte crítica a 'era Reagan' e no individualismo crescente da época. Psicopata Americano olha com nojo para os anos 80, passando longe da nostalgia de Donnie Darko.

Christian Bale é Patrick Bateman, um vice-presidente de uma grande corporação que tem um curioso hobbie: matar mendigos, prostitutas e qualquer um que lhe irrite. O filme faz escárnio como protagonista, o assassinato de um mendigo tem tanta importância quanto ao tipo de papel e a fonte utilizada nos cartões de visita dos vários vice-presidentes da empresa (e para entender melhor a piada, sugiro que assistam Enron - Os Mais Espertos da Sala).

A direção de Mary Harron é inteligente ao mostrar o vazio no apartamento e no escritório de Bateman, e ao salientar o absurdo da história, como no momento em que Bateman tenta estrangular um parceiro no banheiro, cena cujo desfecho é um dos momentos mais engraçados do filme. O problema é que o final não apresenta sua mensagem como deveria, a história não fica clara o suficiente. Não tenho problemas com finais em aberto ou ambíguos, mas Psicopata Americano não se fecha como deveria (e não posso dizer mais sobre isso para não fazer spoiler).

Tornando-se ainda mais divertido agora que a diretora revelou que Bale se inspirou em Tom Cruise para criar o personagem (uma opção que se revelou extremamente sábia), Psicopata Americano é um bom filme com uma história magnífica; ou seja, uma boa história mal contada, o que não deixa de ser uma boa história.


NOTA: 8,5

Fatal



Filme mais recente da talentosíssima Isabel Coixet, de Minha Vida sem Mim e A Vida Secreta das Palavras, Fatal não chega a ser tão genial quanto estas duas obras, mas é um romance dirigido com forte personalidade pela diretora e com um trabalho sensacional dos atores envolvidos, algo que por si só, já faz a diferença no gênero. David (interpretado por Ben Kingsley) é um intelectual e professor de universidade que jamais esconde seu desejo pelas estudantes. Sua rotina de pegar uma aluna por semana muda quando ele conhece Consuela (Penélope Cruz), uma estudante cubana com quem logo inicia um romance cujas consequências serão trágicas.

Fatal é um filme que foge do comum do gênero com a maneira franca e direta em que lida com seus dilemas: e os diálogos entre David e seu melhor amigo (Dennis Hopper em sua melhor interpretação em anos) soam divertidos e realistas. Outro ponto positivo é a maneira curiosa (e cruel) em como lida com o relacionamento de David e seu filho, que o odeia por ter abandonado sua mãe, mas logo começa a se ver indo pelo mesmo caminho.

Coixet continua uma grande diretora: dona de um senso estético invejável para a construção dos enquadramentos, o filme só parece não ser tão genial quanto seus outros trabalho por não ter sido escrito por ela. Sendo assim, as narrações em off no início não funcionam, e algumas outras tramas paralelas, como a da personagem de Patricia Clarkson, demoram demais a fazer sentido dentro da história. Mesmo assim, todos os defeitos de Fatal ficam na primeira metade do filme, já que depois, se revela um crescendo desesperador e muito bem feito.

Fatal é um romance perturbador que também se revela um drama muito mais profundo do que aparenta, e um estudo de personagem extremamente perturbador. E as performances vicerais de Ben Kingsley e Penélope Cruz somado a peculiar direção de Coixet resultam num filme único e que merece ser assistido.

NOTA: 8

Chega de Saudade



Uma visão bonita e poética sobre a Terceira Idade, ou a Melhor Idade. Dirigido pela talentosa Laís Bodanzky (de Bicho de Sete Cabeças), Chega de Saudade se passa em um baile, onde acompanharemos a história de diversos personagens: a viúva que vai lá pela primeira vez; o casal briguento que não pode dançar, já que o marido está com a perna machucada; o tiozão malandrão que resolve dar em cima da moça mais nova; a tiazona poderosa e etc.

Interpretando Álvaro com talento, Leonardo Villar é o destaque absoluto da projeção, e tanto que a melhor cena do filme é aquela em que ele se imagina dançando sozinho e aplaudido no meio de todos, que gera uma bela rima visual com seu desfecho. Aliás, todo o elenco dá um verdadeiro show, com exceção do sempre mala Paulo Vilhena que transforma não apenas seu personagem como o próprio casal do personagem na trama mais irritante da história.

Incluindo detalhes divertidos em meio as situações, como os garçons que não servem apenas cerveja, mas também remédios, incluindo um aparelho para medir pressão no bar, Chega de Saudade conta ainda com a fotografia sempre inspirada de Walter Carvalho (apesar de ele continuar com a mania chata de brincar com o foco em closes), e um dos melhores roteiros produzidos nos últimos tempos. É um pequeno filme sobre um grande tema, e melhor, feito de coração.

NOTA: 9

Alma Perdida



Enquanto eu assistia Alma Perdida, um pensamento não saia da minha cabeça: Se Michael Bay dirigisse um filme de terror, seria exatamente assim. E não deu outra, já que nos créditos o nome de Bay aparece como produtor. Alma Perdida é um filme tão ruim, que chega a ser bacana: os espíritos são tão exagerados, que a caracterização chega a ser divertida; o exorcismo é tão "grandioso" (no sentido escandaloso da palavra) que é impossível conter as risadas.

Assim como em seu filme anterior, O Invisível, David S. Goyer mostra pontualmente seu talento, como no sonho em que a protagonista está no teto (que tem um movimento de câmera esplêndido), mas são os erros que se destacam. Quando a protagonista descobre que não deve manter espelhos em casa, Goyer faz ela quebrar todos para efeitos dramáticos, quando faria muito mais sentido simplesmente tirá-los de casa (doh'). E Odette Yussman, revelação de Cloverfield, tenta ao máximo criar uma personagem coerente, mas quando até Gary Oldman parece perdido é porque tem algo de muito errado.

 Mas o mais triste é que o filme apresenta algumas características originais, e que me fizeram gostar dele: a burocracia envolvida antes do exorcismo por exemplo é intrigante e a origem do tal espírito que acaba remetendo as experiências conduzidas por Mengele na época do nazismo é uma ótima sacada, mas isso está no meio de uma trama clichê e as vezes irritante.

Alma Perdida se destaca dos demais filmes de terror produzidos nos Estados Unidos por apostar no misticismo judaíco, algo que confesso nunca ter visto antes, e se metade do que o filme apresentou for real, é uma pena que um tema fascinante tenha sido jogado de qualquer jeito aqui. Contando com um final moralmente MUITO discutível e a cena de exorcismo mais... engraçada já feita, o filme não é um completo desperdício, mas quem espera um bom filme de terror vai se decepcionar.

NOTA: 4

Uma Garota Irresistível



Uma Garota Irresistível perdeu a oportunidade de ser um grande filme pela covardia do roteiro e por não perceber o que havia de realmente interessante na história. Contando a história trágica de Edie Sedgwick, uma jovem que sonha em ser artista que acaba se tornando musa de Andy Warhol, até acabar tendo um caso com Bob Dylan.

E quando citei a covardia do roteiro, não falei a toa, já que apesar do visual, da história e tudo mais remeterem a Bob Dylan, o filme nunca cita o nome dele (a não ser em uma cena que Edie o chama de Billy... hum...). Fora isso, se o filme conseguia escapar de seu pior defeito (que é jamais conseguir estabalecer quanto tempo se passa entre uma cena e outra) pelas ótimas cenas entre Edie e Warhol, é lamentável que no terceiro ato o roteirista e diretor George Hickenlooper jogue toda a boa construção dos personagens ao transformá-los em mocinhos e bandidos.

E se o filme consegue escapar da mediocridade é pelo elenco liderado por Sienna Miller que faz um trabalho soberbo como Edie, e Guy Pearce numa atuação inspiradíssima como Andy Warhol. Aliás, até Hayden Christensen se sai bem como Bob Dyl... ops, Billy, enquanto Jimmy Fallon e Mena Suvari parecem completamente deslocados.

Beneficiado também pela excelente montagem, que assim como Milk consegue misturar cenas de diferentes épocas e formatos de maneira orgânica, Uma Garota Irresistível tem um pequeno trunfo por trás de si: Edie se envolveu com dois grandes artistas de gênios e opiniões completamente diferentes, e não é a toa que o filme só cresce quando Andy Warhol e Bob Dylan falam de sua arte, enquanto Edi se vê claramente dividida em suas opiniões. Pena que nenhum dos realizadores percebeu que essa foi a grande tragédia da história.


NOTA: 7

Eva de Gaspar Noé

Gaspar Noé dirigiu o polêmico (e excelente) Irreversível, e esse ano estreou seu filme novo Enter the Void em Cannes, que por sinal, não tem nenhum sinal de que chega ao Brasil. Este seu curta-metragem beeeeem experimental não é nada demais, mas só o plano-sequência dele já vale a vista.

A Vida Secreta das Palavras



A Vida Secreta das Palavras é um filme surpreendente desde o início, quando nos coloca ao lado de Hanna (Sarah Polley). A personagem é isolada e falar parece ser um grande esforço para ela, e mais: aos poucos, uma curiosa hostilidade vai aparecendo na personagem, e o filme não facilita em nada nossa identificação com ela. Mesmo assim, a nossa curiosidade sobre o que estaria por trás daquele comportamento é o que nos prende a obra. O filme conta a ida de Hanna para uma plataforma petrolífera onde irá cuidar de Josef (Tim Robbins), que se queimou seriamente ao tentar salvar um amigo de um acidente a bordo da plataforma.

Interpretando Hanna com o talento habitual, Sarah Polley faz uma atuação minimalista que aos poucos vai se tornando tão enigmática quanto fascinante. Já Tim Robbins faz a melhor atuação de sua carreira ao construir seu personagem com um inusitado toque cômico, que tornam suas cenas com Polley em momentos magníficos, mesmo que muito pouco seja dito.

A direção de Isabel Coixet encontra a perfeição nesse filme: ao contrário do que a diretora fez no ótimo Minha Vida Sem Mim, aqui não há qualquer alegoria e nem cenas que distraiam o público. Aliás, tudo bem que a própria plataforma se torne uma metáfora para a solidão, mas aqui as alegorias se misturam com perfeição a narrativa e jamais atrapalham.

Contando com um terceiro ato perfeito com um clímax emocional inesperado e fortíssimo e uma das cenas finais mais tristes que já vi, A Vida Secreta das Palavras peca apenas por não fechar a linha narrativa dos personagens coadjuvantes (eu, particularmente, lamentei que o filme não mostrasse um desfecho para Simon, o cozinheiro interpretado por Javier Cámara), apesar de nem isso estragar esta obra que merece ser apreciada pela coragem que surge em seu ato final.

NOTA: 9

Choke - No Sufoco



Adaptado por Clark Gregg (mais conhecido pela sua participação na série chatinha da Old Christine) a partir do livro do genial Chuch Palahniuk (autor de Clube da Luta), Choke - No Sufoco pode não ser tão instigante quanto a adaptação dirigida por David Fincher, mas se revela igualmente extraordinária de sua própria maneira. Os fãs de Tyler Durden certamente podem ficar decepcionados com o filme, já que Choke apesar de ser igualmente subversivo e tão errado da cabeça quanto O Segurança Fora de Controle, no final das contas é uma história de amor tão bonita quanto inusitada.

O protagonista Victor Mancini é um trapaceiro, viciado em sexo e, como se proclama, "uma parte da espinha dorsal da América". Enquanto seu melhor amigo, que se masturba em qualquer momento inapropriado, inicia um romance com uma stripper, Victor tem que se preocupar com sua mãe que está enfrentando uma demência cada vez pior, principalmente depois que ela revela que Victor não sabe quem é seu pai. Decidido a saber quem é (muito mais pelas dificuldades financeiras, que pelo amor paternal), ele aposta num tratamento nada ortodoxo oferecido por uma das médicas do hospital.

E revelar mais da trama seria um pecado, já que a cada revelação, o filme fica mais e mais rico, e mesmo que Clark Gregg se revele um diretor bastante inexperiente, a história é sensacional e os atores estão em estado de graça: encarnando Victor Mancini com a competência habitual, Sam Rockwell está sensacional, engraçadíssimo e profuncamente dramático conforme a trama avança. E se Anjelica Huston cria uma das figuras maternas mais bizarras do cinema, Kelly Macdonald se destaca ao atuar com um esperto misto de inteligência e doçura (algo mais do que apropriado a personagem).

Choke - No Sufoco, assim como Clube da Luta, não vai agradar a todos, mas é um filme tão inusitado e divertido que é difícil não acreditar que testemunhamos uma obra impressionante: afinal, quantos filmes conseguem debater a natureza humana citando desde a Bíblia até fantasias pervetidas, como fetiches de estupro? Pois é...


NOTA: 10

O Paraíso é Logo Aqui



O Paraíso é Logo Aqui (péssima tradução para Henry Poole is Here...) é uma comédia dramática eficiente que toca num assunto delicado: a fé religiosa. O filme conta a história de Henry Poole que compra uma casa num subúrbio de Los Angeles que tem uma mancha numa das paredes, que logo começa a ser visto pela vizinhança como um sinal divino (o rosto de Cristo). Henry, que só quer sossego, não entende o que seus vizinhos enxergam naquela mancha e faz de tudo para acabar com as visitas religiosas que logo começam em seu quintal.

Luke Wilson está numa atuação tão fantástica como Henry Poole que o filme nem precisava utilizar de flashbacks para nos contar o que há em seu passado: está tudo nos olhos tristes do ator, que mais uma vez se revela um dos mais subestimados de sua geração. E se o roteiro começa de maneira sensacional, é uma pena que logo depois ele se revele muito mais esquemático do que parecia. E se mesmo assim o filme sobrevive, é pela atuação de Wilson e de Radha Mitchell, que também está excelente.

Dirigido por Mark Pellington, dos também ótimos O Suspeito da Rua Arlington e A Última Profecia, O Paraíso é Logo Aqui conta com um visual rico em cores e uma belíssima fotografia, e a montagem também se revela inspirada, com transições elegantes e dinâmicas. E se Pellington erra no uso flashbacks, em um deles ele acerta em cheio (no momento em que Henry se encontra embaixo dos trilhos de um trem), que é curto e elegante, e conta muito mais da triste história do personagem do que o resto do filme.

O Paraíso é Logo Aqui se destaca do resto dos filmes sobre redenção pela maneira direta e respeitosa em como lida com a fé. Se por um lado, o monólogo de Henry para a vizinha Esperanza sobre o porque ela precisa que ele acredite na face de Cristo na mancha em sua parede é ácido e cutuca bonito numa ferida escondida nos religiosos, o final do filme é curioso e se revela um grande acerto ao encerrar de forma intrigante sobre o que poderia de fato ter acontecido, e garanto que o filme vai agradar ateus, católicos, budistas e qualquer outro religioso pela forma inteligente que a obra termina.

NOTA: 8,5

Atividade Paranormal



A grande sacada de Atividade Paranormal está em apostar no formato mockumentary, já que sua trama aos poucos se revela muito mais clichê do que deveria. Mas este filme de estréia do diretor Oren Peli é uma experiência marcante e assustadora como poucos filmes de terror conseguiram. Além disso, Atividade Paranormal lembra o exercício praticado por Michael Haneke no excelente Caché, ao manter o público nervoso e angustiado em seus planos longos e estáticos.

O filme já começa bem ao não enrolar o espectador e situar rapidamente a história: um casal que vem vivendo experiências assustadoras em casa resolve comprar uma filmadora para ver o que acontece na casa enquanto estão dormindo. Conforme os dois vão confirmando as suspeitas de que existe algo na casa os assombrando, a tal entidade-fantasma-demônio-exú-sei-lá-o-que começa a assombrá-los de maneira cada vez mais perturbadora.

É uma pena que o filme seja tão montado e certinho (principalmente nos diálogos), mas nem isso atrapalha a sensação de que estamos testemunhando um casal de verdade enfrentando seus demônios (num duplo sentido bacana, não?). Aliás, os atores Katie Featherston e Micah Sloat não são atores sensacionais, mas tem uma excelente dinâmica que torna o filme interessante de acompanhar.

Já o melhor aspecto do filme está em sua fotografia inteligente: se de início, o filme estabelece de maneira inteligente que as cenas mais normais são de dia com uma fotografia "descuidada", e as mais assustadoras serão no azul com a lente grande angular, o filme se revela infinitamente mais tenso quando começa a inverter a brincadeira, gerando uma tensão insuportável, complementada pelo brilhante uso dos efeitos sonoros.

No fundo, o filme é um conto moralista (ou um cautionary tale), assim como A Bruxa de Blair : se neste último os três jovens são punidos por não respeitarem a tradição local, aqui são punidos por mexerem com o desconhecido. Mesmo assim, Atividade Paranormal se revela uma ótima surpresa para os fãs do gênero terror e do mockumentary, e se o filme peca no final ao colocar legendas tentando nos convencer de que testemunhamos algo de verdade, há inteligência sobrando no desenrolar desse ótimo filme para manter nossa atenção do início ao fim.


NOTA: 8,5

2012



Autor de alguns dos maiores guilty pleasures de cinéfilos dos últimos tempos, Roland Emmerich destrói (de novo) tudo que se encontra a sua frente com fogos, ondas gigantes e tudo mais que estiver no seu arsenal (de novo). Baseado na tal lenda maia que diz que nosso fim será em dezembro de 2012, o filme, er... 2012 é bem-sucedido no que se propõe a fazer: é um filme-catástrofe quase ignorante, tamanha a destruição que é mostrada em seus enquadramentos longos e surpreendentes.

Já esperar uma história interessante no filme chega a ser uma palhaçada, já que se revela quase uma variação de O Dia Depois de Amanhã, com problemas familiares em meio a milhões de mortes por segundo. E o único personagem realmente bom é o divertido maluquete interpretado por Woody Harrelson, cuja animação é provavelmente é a melhor cena do filme, e infelizmente o filme se livra dele muito antes do esperado. John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor e Danny Glover são atores sensacionais, mas não tem muito o que fazer aqui (a não ser correr e fazer cara de susto).

O roteiro peca pelo excesso de sub-tramas, que fazem o filme ficar muito mais longo que o ideal (quase 2h40min), mas dá pra perdoar fácil esse pecadilho pelo nível assustador dos excelentes efeitos especiais, que são tão bons quevalem o ingresso.Enfim, 2012 é um bom filme dentro de seu gênero, e quem é fã vai gostar bastante. E quem não é fã do gênero nem do diretor, pelo menos poderá ficar satisfeito com a destruição do Vaticano.


NOTA: 7,5

The Silent City de Ruairi Robinson

Ruairi Robinson é um talentoso diretor que chegou até a ganhar um Oscar de Melhor Animação em Curta-metragem. E seu talento foi notado em Hollywood, tanto que ele foi escolhido para fazer a adaptação live-action de Akira, que infelizmente não aconteceu. De qualquer maneira, aqui está o seu excelente The Silent City:

Darkened Room de David Lynch

Curta-metragem interessante dirigido por David Lynch. Segue um pouco a linha de Império dos Sonhos: é feito para sentir, e não para entender. Brincando com o poder da sugestão de que algo terrível está para acontecer através dos diálogos bizarros, não é um trabalho excelente, mas é um curta experimental de primeira:

Caminho para Guantánamo



Daqui a alguns anos, quando olharmos para trás e analisarmos o impacto geral do que a era Bush representou em Hollywood, veremos que existiram dois tipos de cinema produzidos independente de suas qualidades técnicas/narrativas: o covarde, e o corajoso; ao analisarmos isso mais a fundo, perceberemos que os covardes venceram: o covarde se vangloriava da violência justificada, representada por Chamas da Vingança de Tony Scott, ou Falcão Negro em Perigo. justificava a vingança. Do cinema corajoso, será curioso ver como eles passaram em branco: Filhos da Esperança de Alfonso Cuarón ou A Última Noite de Spike Lee. Esse cinema corajoso foi declarado culpado pelo crime de pensamento em vigor nos dias de hoje e foram ignorados pelas massas, pois uma vez assistidos, eles apresentam idéias e atitudes que não condiziam com o pensamento atual.

Já saindo do mundinho da "América", o cinema mundial gritou de todas as formas possíveis para que Bush ouvisse suas próprias atrocidades, que fosse culpado pelos seus crimes. Desde filmes de entretenimento, como o coreano O Hospedeiro, passando por este brilhante Caminho para Guantánamo. É a história real de quatro amigos ingleses (e muçulmanos) que viajam ao Paquistão para o casamento de um deles. Lá, decidem viajar para o Afeganistão, e por obra do azar acabam em meio a várias pessoas com ligação com o Talibã e Osama Bin Laden. De lá, são enviados junto com os prisioneiros para uma das maiores vergonhas da história recente, a prisão de Guantánamo, na base americana em Cuba.

O filme utiliza um tipo de narrativa que eu detesto: o de usar depoimentos enquanto reconstitui as cenas como aconteceram, mas desde o início o filme dava sinais de que aquilo não era um mero acaso: poucas vezes testemunhei uma escolha tão acertada de narrativa no sentido de o que contar e como contar. A história é narrada de maneira rápida e jamais se torna confusa já que seguimos a linha de raciocínio das entrevistas: o resultado é que a história é mostrada de maneira enxuta e econômica, servindo ainda mais como um soco no estômago, já que mal testemunhamos um absurdo, já estamos vendo outro. Enquanto os guardas americanos provocam os presos chutando o Alcorão (e até eu que não conheço ninguém da religião, entendo o tamanho do desrespeito), os depoimentos feitos por "especialistas" da CIA surgem quase como alívio cômico, tamanho o absurdo exposto. E os realizadores demonstram cojones ao exibir imagens de Bush, Toni Blair e o resto dos culpados pela Guerra, contradizando-os com imagens reais que se misturam de forma orgânica a obra.

Utilizando uma montagem ímpar que impressiona sempre que apresenta as legendas de quanto tempo se passou de uma cena para outra, o filme foi dirigido por Mat Whitecross (que não conheço) e o talentoso Michael Winterbottom, que realizou outra obra-prima na década, o pouco visto (e apreciado) Código 46. Os diretores são extremamente bem sucedidos ao prender a atenção do espectador de forma assustadora, e para eles não basta mostrar como aconteciam as terríveis torturas psicológicas e físicas: enquanto somos apresentados a essas cenas horríveis, ouvimos as descrições detalhistas dos entrevistados.

Encerrando o filme com um "final feliz" que é seguido por informações finais devastadoras, Caminho para Guantánamo é uma obra-prima sensacional que mostra como o cinema pode e deve ser encarado como algo muito maior do que simplesmente entretenimento: deve ser tratado, sim, como um espelho da devastadora realidade que nos cerca.


NOTA: 10

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