Shame



(Shame - Dir. Steve McQueen)


"Nós não somos pessoas ruins... só viemos de um lugar ruim..."

Shame é um filme sobre cicatrizes emocionais e físicas. Brandon é viciado em sexo. Buscando orgasmos compulsivamente, chama prostitutas, arruma mulheres (e homens), se masturba no chuveiro, no banheiro do trabalho. Aliás, não parece haver grande diferença entre sexo ou masturbação para o sujeito: são apenas meios para o orgasmo. Mas não há qualquer machismo em questão: trata-se de uma necessidade fisiológica extrema, que beira o doentio.

A cena do metrô na abertura é fundamental para compreendermos o protagonista: o flerte entre Brandon e a garota. Enquanto ela sorri, retribuindo o flerte, ele se mostra inexpressivo. Seu olhar obsessivo acaba por assustá-la. Ela foge, e Brandon corre impulsivamente atrás dela. O desejo dele pela garota se assemelha ao de um viciado em drogas prestes a tomar mais uma dose. E o vício em sexo do sujeito não passa de uma variação disso: logo vemos o quanto funciona como um perturbador método de auto destruição.

Dirigido por Steve McQueen e escrito diretor em parceria com Abi Morgan (sim, a mesma roteirista de A Dama de Ferro), Shame é um estudo de personagem dos mais fascinantes. No centro do conflito está a irmã de Brandon, Sissy (Carey Mulligan), que vai até Nova York passar alguns dias com ele, atrapalhando a melancólica rotina do sujeito - algo que gera conflitos enormes, que parecem sempre fazer referência a um passado tempestuoso, que jamais é esclarecido pelo filme.

Michael Fassbender já não precisava provar mais nada para ninguém depois de Hunger e X-Men: Primeira Classe (além de ter trabalhado com David Cronenberg no ainda inédito Um Método Perigoso), mas supera toda e qualquer expectativa: sua entrega absoluta ao personagem é inspiradora. Trabalhando o arco dramático do personagem de forma sublime, Fassbender encarna Brandon como um sujeito com sérios problemas emocionais, mas um bom sujeito - não é a toa que seu envolvimento com uma colega de trabalho que claramente desperta alguns sentimentos nele seja um dos pontos mais trágicos da obra.

Enquanto isso, Carey Mulligan foge completamente da persona cinematográfica que vinha trabalhando até então, interpretando Sissy como uma mulher forte e independente, mas emocionalmente fragilizada e desequilibrada. Em um dos vários momentos brilhantes da obra, a atriz rouba a cena ao cantar New York, New York, num arranjo atípico, de forma sensacional: é como se estivéssemos ouvindo a história de sua vida naquele momento. Cena hipnótica, belíssima, complementada com perfeição por Fassbender.

Apesar de ser um filme sobre sexo, e obviamente ter várias cenas de nudez, Shame lembra o tom de Crash - Estranhos Prazeres. Não há erotismo, é quase mecânico - com exceção do momento entre Brandon e a mencionada colega de trabalho, e o desfecho da cena acrescenta uma ironia ainda mais terrível ao drama. Quando vemos o protagonista na cama com duas mulheres, o tom da cena é tenebroso, o orgasmo do protagonista parece deformar seu rosto.

Com um desfecho poderoso, que se inicia com a sequência de flashbacks no metrô, Shame é um filme em que o subtexto e tudo que fica nas entrelinhas é tão devastador quanto os seus momentos de extrema e constrangedora intimidade. No final das contas, talvez a cena mais importante seja aquela na qual os irmãos discutem de forma dolorosa sobre sua relação, enquanto ao fundo vemos um desenho animado passando na TV - duas vítimas de uma infância tão horripilante quanto nossa imaginação consegue imaginar quando surgem os créditos finais.

NOTA: 10

O Porto



(Le Havre - Dir. Aki Kaurismäki)


Diretor de estilo forte, o finlandês Aki Kaurismäki realiza em O Porto um filme mais otimista e poético do que costuma fazer. Seu curioso e estranho estilo de direção de atores funciona de forma perfeita dentro da trama, que lida com o desprezo de governo e da sociedade pelos imigrantes. Mas O Porto apresenta uma fábula de bondade, sobre o impulso humano de ajudar o próximo.

Conta a história de um pobre engraxate que ao mesmo tempo em que se afasta da mulher, internada num hospital, se aproxima de um garoto que chegou ilegalmente ao local junto com outros familiares em um container, mas que conseguiu escapar da polícia. Enquanto a procura pelo garoto se intensifica na cidade, o engraxate descobre o porque da sua viagem e decide ajudá-lo, mobilizando todos os seus vizinhos na tarefa de levá-lo ao seu destino.

Quem não está familiarizado com a obra do cineasta certamente vai estranhar o clima do filme. O que mais chama a atenção na obra de Aki Kaurismäki é a sua maneira de trabalhar com os atores: não há grandes reações. De certa forma, os atores parecem apenas recitar o texto, sem trabalhar com qualquer emoção em cena. Comparável ao que Jim Jarmusch realiza em seus filmes, mas ainda mais extremo. O resultado é curioso: em alguns momentos, presenciamos um diálogo tristíssimo, mas o impulso é de rir da cena, como no diálogo entre o protagonista e a esposa no hospital, no qual ela pede o vestido amarelo. Mas os destaques são os preparativos para a tal fuga, que mesmo não sento muito bem desenvolvido pelo roteiro acaba divertindo, e o momento em que o protagonista viaja em busca do passado do garoto e encontra o seu avô num presídio: o diálogo é curto, mas poderoso - sem dúvidas, um momento pequeno e memorável.

Mas como também aconteceu em seu trabalho mais conhecido, o excelente O Homem sem Passado, o estilo funciona de forma perfeita para o propósito do cineasta: as ações de bondade e do seu protagonista são atos dignos e nobres, sem dúvida, mas na visão de Kaurismäki isso é algo natural; é digno de aplausos, uma amostra de como o indivíduo tem o dever de ser mais do que um reflexo de sua sociedade. 

NOTA: 8

Habemus Papam




(Habemus Papam - Dir. Nanni Moretti)

A premissa de Habemus Papam é tão boa, que é possível imaginar que funcionasse bem por duas horas sem fugir daquilo. Mesmo assim, é ainda melhor ver um filme que tenta ser mais do que apenas uma boa premissa, como O Primeiro Mentiroso de Ricky Gervais, ou o próprio Habemus Papam, embora este acabe se perdendo da metade para o final, pecando na estrutura do roteiro e no desenvolvimento de algumas situações.

Este novo trabalho de Nanni Moretti começa com a morte do Papa, e a reunião no Vaticano para escolher o substituto, que acaba sendo o personagem interpretado pelo veterano Michel Piccoli. No momento em que todos se preparam para o anúncio, o Papa sofre um colapso nervoso, obrigando o Vaticano a chamar um psicólogo para tratá-lo. E como a Igreja ordena que nenhum daqueles homens pode sair dali enquanto o anúncio do Papa seja oficializado, o clima de nervosismo aumenta, conforme ele deixa cada vez mais clara a sua relutância em aceitar o cargo.

Infelizmente, Moretti comete o mesmo erro que prejudicou seu filme anterior (Crocodilo), e se atrapalha na condução das linhas narrativas, numa estrutura irregular e decepcionante. Se por um lado os rumos que a história toma são interessantes, é decepcionante que algumas das melhores idéias da trama fiquem tão mal resolvidas, como o crescente nervosismo entre os cardeais, ou as discussões entre eles e o psicólogo (que é ateu ou agnóstico). E é uma pena que o sujeito contratado para ser o dublê do Papa em seus aposentos ganhe tanta atenção quando pouco contribui na trama, rendendo apenas um grande momento, ao colocar uma música em volume alto.

Mesmo assim, Habemus Papam funciona bem por inúmeros motivos: Michel Piccoli está numa atuação iluminada como o Papa, com olhar bondoso e aparência frágil, e beneficiado pela visão acertada do personagem pelo roteiro: sua crise e sua indecisão vem muito mais pelo enorme respeito e carinho que tem pelos fiéis e pela sua Igreja do que qualquer medo ou problema psicológico. Mostrando os outros cardeais de forma leve e curiosa (homens de natureza boa, mas de sentimentos quase infantis), o campeonato de vôlei que surge como distração se revela um dos grandes momentos do filme (mesmo que, novamente, decepcione no desfecho). E como não admirar a belíssima abertura, desde a entrada dos cardeais no local até a tensão da eleição, quando Moretti utiliza narrações em off cada vez mais altas e desordenadas para mostrar como nenhum daqueles homens deseja de fato o cargo em questão.

Mesmo contando com um tom respeitoso que perdura por todo o filme (justamente o seu elemento mais forte), Habemus Papam guarda em sua cena final um momento dúbio, grandioso e corajoso, tanto perante o público, já que é de certa forma decepcionante mesmo que seja perfeito dentro da lógica da trama, mas principalmente perante a temática. A metáfora do Papa em terapia, ou como ator, poderia render piadas agressivas ou óbvias, algo que não acontece em qualquer momento.

Uma escolha sábia: deixa o discurso final ainda mais poderoso e emocionante.

NOTA: 8,5

Guerreiro



(Warrior - Dir. Gavin O'Connor)

Filmes sobre esporte, por piores que sejam, sempre podem disfarçar todos os seus problemas ao mostrar "o grande desafio" sendo superado no final, seja numa luta, um jogo de basquete, baseball ou qualquer outra competição. Isso normalmente me deixa com um pé atrás sempre que me deparo com um exemplar do gênero. Porém, é sempre bom ser surpreendido, como neste Guerreiro, já que além de iniciar como um cuidadoso estudo de personagens, se encerra gloriosamente, mesmo que não de forma complemente satisfatória.

Voltando a trabalhar com o conflito entre dois irmãos na mesma área profissional (como no correto Força Policial, com Edward Norton e Colin Farrell), Gavin O'Connor acerta em cheio na primeira metade do filme, trabalhando bem com a história simples num clima sóbrio e melancólico, utilizando uma trilha sonora pontual e discreta. Além disso, mesmo que a história se revele previsível, a construção das cenas e dos diálogos é admirável, especialmente nos momentos dolorosos entre pai e filho nas cenas entre Tom Hardy e Nick Nolte.

E por falar nos atores, Guerreiro pertence a estes dois grandes atores: Hardy apresenta uma atuação discreta e surpreendente - seu personagem parece estar sempre prestes a ter uma explosão de violência, e nos instantes em que visivelmente se esforça para controlar seus impulsos estão as melhores cenas do filme, como a conversa numa praia a noite com o irmão. Já Nolte faz a figura paterna, falha, ausente e repleta de remorso, que tenta num último golpe desesperado reatar a relação com os filhos. Está comovente e tem momentos brilhantes, como a recaída no quarto de hotel. Joel Edgerton está bem, competente, mas não tem uma cena sequer que chegue aos pés dos dois, enquanto Jennifer Morrison está carismática, mas apagada, não consegue acrescentar nada.

Da metade para o final, Guerreiro não consegue manter a qualidade: desde a montagem típica mostrando o treinamento dos irmãos, passando pela mudança de tom que o diretor usa para narrar o campeonato, repetindo o único erro de Rocky Balboa, no uso de uma linguagem televisiva dentro da trama, o filme sobrevive pela construção impecável de seus personagens. Mesmo com todos os problemas que surgem no filme, torcer por eles se torna inevitável. E ao mesmo tempo em que o desfecho apresenta uma solução fácil demais, inverossímil, tematicamente é um final admirável e emocionante. O resultado, portanto, representa o que há de típico nas produções do gênero, mas nesse caso específico, isso não o diminui.

NOTA: 8,5

A Dama de Ferro



(The Iron Lady - Dir. Phyllida Lloyd)

Desastrosa cine biografia da popular ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher. Alvo de inúmeras controvérsias e críticas pelas suas ações políticas, teve uma passagem longa e conturbada pelo poder, num período marcado pelo aumento do desemprego, violência social, de conflitos com o IRA, pela guerra das Malvinas e de abuso de autoridade pela política e polícia. Não é a toa que o período repressor inspirou obras como Watchmen e V de Vingança de Alan Moore, e até mesmo a adaptação para o cinema de 1984. Mesmo assim, há quem idolatre Thatcher, justificando que suas decisões foram eficientes a longo prazo, além óbvio, do poderoso símbolo que se tornou para o mundo, ao se tornar a primeira mulher a chegar ao cargo na Inglaterra.

Mas nada disso interessa ao filme. O que interessa é mostrá-la doente, em meio a delírios nos quais enxerga o falecido marido (em cenas constrangedoramente parecidas com as de Uma Mente Brilhante) ou seus filhos, saindo de um vídeo caseiro para sua sala. Sua história política é mostrada por flashbacks que nunca demonstram como ela realmente chegou ao poder. Percebam que o filme dedica mais tempo para as aulas que ela toma para mudar a voz (em cenas constrangedoramente parecidas com as de O Discurso do Rei), e a troca de visual do que em sua dificuldade em se adaptar a um mundo estritamente masculino. 

Quando vemos a protagonista jovem em uma reunião com membros de um partido: como ela conheceu aquelas pessoas? Quando ela consegue uma posição no partido: mas como ela conseguiu, se apenas um deles a deu atenção (e nem sequer era um membro, mas um empresário local)? Quando a história avança: porque seu filho não é mais mencionado na história? Quando ela consegue entrar para a política de vez: como ela superou o machismo, conseguindo ainda uma posição tão prestigiosa? Acreditem, não há sequer uma informação sobre a vida de Thatcher que seja apresentada de forma clara e coerente, mesmo em questões mais básicas: afinal, quando o marido dela morreu? No atentado ou depois? E o que dizer do terceiro ato, quando a história se concentra na guerra das Malvinas, e numa tentativa bizarra de apresentar apenas os fatos, sem julgar, transforma sua protagonista dali em diante numa vilã de folhetim barato.

E se o roteiro de Abi Morgan falha miseravelmente no básico do que deveria fazer, imaginem como falha ao tentar fazer tudo parecer mais complexo. A montagem sem qualquer ritmo consegue bagunçar ainda mais a estrutura "complexa" da trama, como no momento em que Thatcher se reúne com os homens que a explicam como mudar sua imagem - no meio da cena, vemos os dois abrindo um champagne para comemorar, e no próximo corte, vemos Thatcher na mesma posição do início da cena - ou fazer um flashback de uma fala que foi dita a menos de 10 minutos antes. 

A direção pedestre e sem qualquer sinal de talento de Phyllida Lloyd sepultam de vez a obra. Argumentar que uma diretora que conseguiu errar a mão em Mamma Mia! não conseguiria muito mais do que ser medíocre numa obra mais séria é pouco. Phyllida não consegue realizar um enquadramento sequer que seja original ou interessante. Se citei Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, não foi a toa: aparentemente, foram os únicos filmes que a diretora usou como referência (e por referência, entenda surrupiar idéias, enquadramentos, movimentos de câmera, etc.).

Mas nenhum pecado é maior do que transformar mais uma atuação impressionante de Meryl Streep numa caricatura bizarra. Há poucos momentos dramáticos nos quais a atriz se sai bem. Mas o roteiro é tão fraco, e há uma busca tão grande por estilo, que nada a ajuda. Pelo contrário, atrapalha. É bom ver essa grande atriz ser premiada, mas não por um de seus piores trabalhos, prejudicado por um filme pretensioso e preguiçoso.

Esse é o mal da pretensão: sou fã de filmes pretensiosos. O problema é que um filme pretensioso ruim, é muito, mas muito pior do que um mero filme ruim.

NOTA: 0

Drive



(Drive - Nicolas Winding Refn)

" - Ele é o vilão?
 - É.
 - Como você sabe?
 - Porque ele é um tubarão!
 - Não existem tubarões bons?"

Há um detalhe sutil que faz toda a diferença na trama de Drive: o Motorista (o nome do personagem nunca é mencionado) interpretado por Ryan Gosling trabalha no mundo do crime em Los Angeles, onde também trabalha como dublê em cenas que envolvem manobras perigosas com carros em filmes. Não é a toa que a história é ambientada na mesma cidade de Hollywood: quando analisamos seu protagonista, claramente inspirado em grandes personagens do cinema, com direito a fortes marcas visuais, como o figurino (a jaqueta com a estampa de escorpião) ou o palito no canto da boca.

Quando assisti a Bronson, também dirigido por Nicolas Winding Refn, fiquei particularmente impressionado ao observar como todos os elementos narrativos obedeciam a lógica de seu protagonista: impulsivo, violento e bizarramente divertido. Assim, Bronson possui uma montagem frenética, de cores fortes   e vários rompantes curiosos de um humor absurdo. Em Drive, acompanhamos um protagonista consciente de sua condição como protagonista: ele construiu um personagem (o Motorista) e vive como se estivesse dentro de um filme. Nicolas Winding Refn usa isso a seu favor e para criar um filme de ação direto e violento como nos anos 70, mas com um visual que remete aos anos 80. O encontro da época dos anti heróis fascinantes e amorais com a do egocentrismo e visual estilizado.

Apesar de ser um filme de ação, Drive funciona principalmente como um estudo de personagem. Frio, calculista e extremamente eficiente em sua linha de trabalho, a ponto de saber perfeitamente quando abusar da velocidade ou se esgueirar a noite, desligando as luzes do carro e parando em lugares estratégicos, ele encontra em sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho uma agradável distração em sua rotina.

Numa época em que tantos roteiristas tentam desesperadamente ser Tarantino, é um alívio contemplar um trabalho exemplarmente minimalista como o de Hossein Amini. Mantendo todos os diálogos sucintos e diretos, o roteiro dá espaço aos atores e ao diretor criarem belas sequências, como a constante troca de olhares entre Gosling e Mulligan, e a já clássica sequência que se passa num elevador. Aliás, o próprio filme parece consciente disso: reparem que no único momento em que o personagem de Albert Brooks começa um monólogo típico e o interrompe pela metade ao perceber o interesse do Motorista.

Com a carreira finalmente recebendo o merecido destaque no ano passado, graças a Tudo Pelo Poder e O Amor a Toda Prova, Ryan Gosling tem mais uma grande atuação: minimalista, encontramos os traços de frieza que o tornam tão competente em sua linha de trabalho, mas também uma enorme ternura em suas cenas com Carey Mulligan, apenas para nos surpreendermos de novo com o lado mais ameaçador do sujeito. Mulligan aproveita a excelente química com Gosling e faz um belo trabalho, e o "romance proibido" entre os dois acaba se tornando um dos melhores elementos do filme.

Mas os elogios ao elenco estão só começando: ainda há Bryan Cranston atuando num tom sacana que funciona bem a seu personagem, Ron Perlman que é sempre ótimo quando está em um bom filme, Oscar Isaac que consegue fugir de todo clichê possível e imaginável ao interpretar o marido recém saído da prisão e Albert Brooks, intenso e gigante em cena, criando um vilão divertido e ameaçador como a tempos não aparecia.

Com uma trilha sonora que reforça o tom oitentista, e uma belíssima fotografia, Drive conta com uma das melhores montagens que vi nos últimos anos, algo notável desde a cena antes dos créditos, quando o filme explica o modus operandi do Motorista numa sequência fabulosa. Nicolas Winding Refn demonstra enorme competência e talento ao equilibrar um filme que mistura diversos gêneros, e aproveita bem a oportunidade de usar slow motions, visual retrô e outros elementos normalmente utilizados apenas para parecer cool, em uma narrativa na qual esses elementos encontram lógica impecável.

Afinal, acompanhamos um personagem que tem consciência de ser um personagem: estamos vendo sua vida da mesma maneira que ele a enxerga, um filme. Isso é trabalhado de forma fascinante em uma sequência específica, que descreverei nos próximos parágrafos (mas só leiam os felizardos que já assistiram ao filme).

Último aviso...

Ok - Para quem assistiu Drive:

Seguindo a lógica de que o Motorista enxerga sua vida como um filme, lembrem da cena em que o ele filma a capotagem, usando a máscara de borracha com o rosto do protagonista. Ok, mais adiante, há o único momento em que o ele "sai do personagem": quando encontra o responsável pela morte do personagem de Oscar Isaac durante o assalto, e liga para o dono da maleta com dinheiro, Nino: o Motorista sua, treme e parece desnorteado ao falar (e aqui, o diretor repete um dos melhores movimentos de câmera de Orson Welles em Cidadão Kane, ao criar um contra plongée em movimento, "achatando" a imagem do personagem com a do teto, dando uma sensação desconfortável). 

O Motorista marca o encontro com Nino, mas o que acontece? Ele usa a máscara do protagonista para matá-lo - o que pode significar muitas coisas: talvez uma auto punição - ele não terá o prazer de matar Nino, pois fraquejou ao confrontá-lo, portanto assume outro alter ego; ou talvez a necessidade de se firmar, de mostrar a si mesmo de que ele é o protagonista, para ter a certeza do que pode fazer... enfim, um curioso elemento que fica aberto para possibilidades fascinantes. Um pequeno toque genial, dentro de um grande filme.


NOTA: 10

A Mulher de Preto (2012)



(The Woman in Black - Dir. James Watkins)

Bobagem nada divertida, com boas atuações, excelente direção de arte e um roteiro decepcionante. Se os esforços narrativos de A Mulher de Preto fizessem juz a sua parte técnica, provavelmente seria um clássico. Saiu um filme ruim - mas tecnicamente admirável. Remake do filme homônimo de 1989 (que não assisti), é decepcionante que este seja o primeiro trabalho de Daniel Radcliffe após o fim da saga Harry Potter, apesar de provar a capacidade do ator em ser um protagonista.

Dirigido por James Watkins (de Sem Saída, e roteirista do fraco O Olho Que Tudo Vê), o filme consegue criar um clima interessante, especialmente na casa da tal mulher de preto, apenas para arruinar tudo com sustos baratos. Mas o mais estranho é o comportamento do protagonista: ao menor sinal de que algo está errado, ele instintivamente corre para ver o que aconteceu - algo que me lembrou do personagem de John Cusack em 1408, com uma diferença importante: em 1408, o protagonista acreditava que estava participando de uma farsa, o que justificava seu comportamento.

Além disso, o roteiro decepciona completamente quando tenta criar uma lógica para a trama, incluindo uma mãe possuída pelo filho, um corpo que deve ser encontrado, e vários outros elementos sem jamais nos fazer compreender como: 1 - os personagens chegaram a conclusão de que devem fazer aquilo, e 2 - qual a relevância daquilo dentro da história (sobre isso, repensem a trama depois da "final surpresa").

O que há de bom em A Mulher de Preto está em seus aspectos mais técnicos, em especial a fotografia belíssima, e claramente inspirada em Os Outros, em especial a sequência na névoa. A cenografia da casa da mulher é um espetáculo a parte, e o diretor faz um ótimo trabalho em mostrar os recifes que a cercam, e como eles a transformam numa espécie de ilha, de forma corretamente opressiva. E, claro, a fantástica Direção de Arte, especialmente a da casa mencionada com seus brinquedos sinistros.

Aliás, tá aí um baita sinal de que algo está errado no filme: os objetos de cena são muito mais assustadores que o filme em si.

NOTA: 3

Programa Cine Ó sobre o Oscar 2012

Minha participação no programa Cine Ó, que contou também com os cineastas Luciano Coelho e Diego Lopes:


O Artista



(The Artist - Dir. Michel Hazanavicius)

Uma brincadeira inusitada que deu certo. E muito. Repetindo a parceria nos dois ótimos filmes do Agente 117, o diretor Michel Hazanavicius e o ator Jean Dujardin não só criaram em O Artista uma bela homenagem ao início do cinema hollywoodiano, mas também um grande filme mudo e preto e branco, que não se limita a ser uma mera curiosidade: o roteiro apresenta uma história que funciona de forma perfeita ao formato, e ainda brinca de forma criativa com a ausência de sons diegéticos.

O Artista mostra a decadência de um ator que se recusa a trabalhar com o cinema sonoro, enquanto começa a ascensão de uma bela atriz completamente apaixonada pelo ator, e que entrou no cinema justamente com a  ajuda dele. Mesmo contando com uma trama dessas que todos sabem como vai terminar, a graça está na forma sempre criativa e adorável que o filme apresenta as situações. Para mostrar o início da paixão dos dois, por exemplo, Hazanavicius mostra o ator tendo que repetir várias vezes a mesma cena durante uma filmagem, por se distrair com a garota. 

Tecnicamente impecável, O Artista reconstrói com perfeição os estúdios da época, e a direção de arte se mostra uma atração a parte, assim como os figurinos. E, como não poderia deixar de ser, o filme conta com uma trilha sonora extraordinária de Ludovic Bource, que tomou uma decisão esquisita ao incluir um trecho da trilha de Um Corpo que Cai em uma cena: não que a música não se encaixe, ou que tenha sido algo anti ético, mas quem é um elemento distrativo: nos tira do filme no exato momento em que a reconhecemos.

Com uma ótima fotografia, e uma montagem que acerta no ritmo, O Artista se revela mesmo surpreendente quando entra em seu terceiro ato, e seu tom dramático funciona maravilhosamente bem, algo que, confesso, eu não esperava. Mérito do belo roteiro, mas ainda mais de Jean Dujardin, um ator carismático, dono de um  sorriso cativante, e absurdamente seguro de sua imagem em cena, e da bela e adorável Bérénice Bejo, que acabou sendo injustamente esquecida nas premiações.

Divertido, nostálgico, criativo e poético, é perfeitamente compreensível entender o efeito que O Artista causou, ganhando prêmios por todos os festivais em que passou, e finalmente consagrando-se no Oscar. Não o considero o melhor filme entre aqueles que foram indicados, mas fico feliz com sua vitória. Afinal, quem diria que  um filme mudo e preto e branco francês que se passa em Hollywood, venceria de um filme hollywoodiano em 3D que se passa em Paris?

NOTA: 9

PS: Como curiosidade, antes dos filmes sobre o Agente 117, Hazanavicius e Dujardin já haviam trabalhado juntos nos filmes de Lucky Luke, mas nesses o diretor participou apenas como roteirista.

A Invenção de Hugo Cabret



(Hugo - Dir. Martin Scorsese) 

Um filme infantil para adultos. Ou melhor, para cinéfilos: uma divertida fábula envolvendo Georges Méliès. Difícil imaginar alguém melhor que Martin Scorsese para dirigir esta belíssima homenagem a um dos grandes mestres do cinema. Aliás, é ainda mais difícil imaginar alguém melhor que Scorsese para dirigir o primeiro filme em 3D produzido em Hollywood que eleva o formato a um nível artístico, e não soa como mero caça níquel (como, infelizmente, o formato ainda se apresenta em 99% dos casos).

Esteticamente, é perfeito. A direção de arte combina com perfeição os cenários com elementos digitais de forma natural, e Scorsese junto ao diretor de fotografia Robert Richardson utilizam o 3D com sabedoria: os cenários, impressionantes em sua escala, e o uso de uma grande profundidade de campo somado aos vários elementos colocados em cena para salientar o efeito, como fumaça, fechos de luz ou neve, transformam o filme numa experiência sensacional, complementada ainda por movimentos de câmera fenomenais, algo que pode ser comprovado já na sequência de abertura.

O roteiro tem uma história interessante, mas o que transforma A Invenção de Hugo Cabret num grande filme é a forma como Scorsese a utiliza para fazer a sua declaração mais apaixonada ao cinema desde O Aviador: seja utilizando stop-motion de forma tradicional, ou simulando o efeito em uma cena cheia de efeitos especiais, recriando o impacto de uma das primeiras filmagens da história (a cena do trem pelos irmãos Lumière, que apavorou as pessoas que a assistiram na época) ou mostrando seus personagens mirins entrando escondidos no cinema para ver O Homem-Mosca, o filme se apresenta como uma jornada poética, de deixar qualquer apaixonado pela sétima arte com as bochechas doendo de tanto sorrir.

Mas é mesmo na homenagem a Georges Méliès que está o melhor do filme: com a belíssima recriação dos estúdios do cineasta e a reconstrução dos bastidores de várias cenas icônicas, Scorsese deixa que sua  atenção aos detalhes e sua declarada e conhecida paixão pela história do cinema falem mais alto o tempo todo, incluindo até mesmo uma de suas maiores causas (a restauração de películas antigas) na obra, e de forma extremamente orgânica na narrativa.

Se A Invenção de Hugo Cabret tem seus problemas, eles estão especialmente no roteiro de John Logan: porque tanta atenção é dedicada aos personagens secundários na estação de trem, se não desempenharão qualquer função dentro da história? Porque o bibliotecário sente tanta antipatia por Hugo ao ver pela primeira vez? E como surgiu o boato de que Méliès havia morrido na guerra (algo que chamou minha atenção, e foi completamente ignorado)? São pequenos detalhes, que não chegam a comprometer toda a obra (embora as tramas paralelas prejudiquem um pouco o ritmo), mas que tiram um pouco da "magia" que o filme proporciona.

Contando com um excelente elenco, com destaque para Sacha Baron Cohen e Ben Kingsley, A Invenção de Hugo Cabret é obrigatório para os amantes da sétima arte, mas deve funcionar bem também para a criançada, mesmo tendo um ritmo um pouco mais lento do que o adequado para o gênero. 

E como pai, garanto: como é bom ver um filme infantil (que não seja uma animação) que posso assistir com meu filho, sem medo de desagradar nenhum dos dois.

NOTA: 9

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